29/09/14

Candeeiros

foto: Nuno Guerreiro Dias [2012]

Lousa, morta
por onde já não cabe a luz
supérflua
e obscura
redonda, a realidade mate.
Há um momento
entre todas as coisas
em que se vaticinam
os minutos seguintes,
pode ser a madrugada
ou um silêncio qualquer,
o bravido miúdo de passos
impiedosos, sem coragem,
ou a luz dos teus olhos,
em caranguejos
e sombras,
enquanto eu, 
debruço-me sobre um livro;
e nesse estertor,
não há uma teleologia do tempo
ou das palavras,
porque as bocas cintilam
silenciosas e
luminosas
de dentes brancos,
buracos negros do tempo
que jamais falarão.

09/01/14

22/11/13

poente

foto: Nuno Guerreiro Dias [2011]
dia iluminado
e desértico
de sombras profundas
e universo inerte,

vento suspenso
de um ar rarefeito,

sóis que rebentam
à demasiada luz
dos olhos

e memória escancarada
de horizonte e lonjura.

passado que se consome
a céu aberto
e fogueiras.

31/10/13

vagão

foto: Nuno Guerreiro Dias [2012]
vagão
de clandestinidades
e uma noite

um tempo sem horas
viagem
e um buraco negro
de lugares e paragens

frestas frias
do universo gelado
num corpo-relógio
em contagem decrescente
de uma floresta densa
de geometrias e planetas,

passagem

as mãos geladas
e o espelho de um rosto
defronte o fantasma-passageiro
nos olhos dentro
a sorte

vazio caminho
e enredo

corredor de mundo
e clarão à chegada,

combustão das horas

presente e passado.

06/10/13

contos de fadas

foto: Nuno Guerreiro Dias [2012]


castelo antigo
e metástases de atmosferas
numa nuvem
de silêncio recôndito
e antiguidades,

vales e cidades
de um olhar
num rio de corpo

eternidades

lugar frio
de vegetação densa

humidade
de um inverno invulgar

memória
da cor de plástico
e opacidade de tempo 
deteriorando-se
numa impossibilidade de mundo
e contos de fadas,

num rectângulo
com vista para o mar
os fumos
são as noções distorcidas
de estória.